A NOVA CARA DA MÚSICA CEARENSE #4: CAIO CASTELO

O coletivo musical Comparsas da Vivenda foi a gênese do que Caio Castelo descobriria querer para si como músico. De lá lapidou o desejo de unir rock a arranjos e harmonias cantados em um tom mais introspecto.

O primeiro trabalho da carreira solo, o disco Silêncio em Movimento, escolheu o ano de 2013 para nascer. De disco virou avião e levou Caio do Ceará aos palcos de Cabo Verde, em abril de 2014. De lá e cá Caio juntou as experiências que desaguaram em Dois Olhos, produzido por Alê Siqueira, profissional responsável também pela produção de trabalhos de Tom Zé e Arnaldo Antunes.

Na conversa a seguir Caio fala sobre carreira e os desafios do cenário musical cearense. Também relata sobre a produção de Dois Olhos, feito a partir de um processo de imersão em um estúdio-fazenda no interior de São Paulo, e ainda fala sobre o financiamento coletivo que lançou na internet para viabilizar a finalização do disco.

Você entrou na cena musical cearense junto ao coletivo Comparsas da Vivenda. O que te motivou a seguir carreira solo e como foi essa transição? Quem é o Caio dentro e o Caio fora dos Comparsas?

Os Comparsas foram um pontapé inicial na minha carreira. A partir dali, fui ganhando mais confiança como músico e compositor, além de identificar o que realmente queria ou não abraçar como uma expressão musical própria minha. Também foi onde comecei a tocar com a Lorena Nunes e o Carlos Hardy, por exemplo, que me acompanham até hoje nas minhas empreitadas solo. Então, acho que poderia até dizer que eu fora dos Comparsas sou quem me descobri dentro dos Comparsas.

O Caio músico é também jornalista por formação acadêmica. No que uma profissão influencia a outra? 

Atualmente, minha formação acadêmica é na música mesmo (UFC). E tô vivenciado essa segunda graduação com muito mais paixão, intensidade e curiosidade. Hoje em dia, o que aprendi na comunicação é muito subordinado às demandas que a música me traz, como divulgar shows, fazer cartazes, editar vídeos, relacionamento com a imprensa, etc. Então ajuda bastante. Ainda bem que minha graduação anterior não foi em matemática, oceanografia ou sei lá.

No que o cenário musical cearense te desafia? Há algum tipo de incentivo do poder público? As perspectivas do artista cearense são instigantes? Há palcos suficientes no Ceará pro artista local mostrar seu trabalho e como é o acesso a esses palcos?

Não sei se posso falar pelo Ceará, mas quanto a Fortaleza, tem aquela questão já conhecida. Até tem palcos, mas muito concentrados em alguns pontos da cidade. De toda forma, acho que precisamos transitar mais, tanto dentro quanto fora de Fortaleza. Lógico que tem mil adver$idade$ pras bandas conseguirem viajar de forma sustentável, mas por outro lado esse também é um elemento chave pra que o trabalho se torne sustentável, também. Muitas vezes é o poder público que desempenha esse papel, e realmente é fundamental que haja esse incentivo, cada vez mais. Porém, ao mesmo tempo, também é bom potencializar ou até criar nossas oportunidades, sem se acomodar. Ultimamente o pessoal tem se profissionalizado mais, pensando mais na cena e se percebido como uma cadeia produtiva. Sou bem otimista em relação a isso.

Você chegou até Cabo Verde com a turnê do seu primeiro disco, Silêncio em Movimento. Quais ganhos adquiridos nos palcos cearenses você levou na bagagem? Conta um pouco do enriquecimento que essa experiência te trouxe.

Acho que a principal bagagem que levei pra lá foram meus companheiros de viagem: trabalhos como Transacionais, Lorena Nunes e Lídia Maria, com os quais tive a alegria de tocar lá com músicos como o Claudio Mendes, Alex Ramon e Marcelo Holanda, além do meu próprio trabalho. A equipe formada pelo Bebeco, Ivan Ferraro e Thais Andrade também foi essencial pra gente fazer nossos sons ecoarem por lá. Tocar na gringa é sempre muito especial, pois você é visto e vê tudo sob outras perspectivas. Lá existe uma ancestralidade muito presente no ar, desde a música às relações pessoais. Foi uma viagem muito rica da qual com certeza ninguém voltou igual.

O que é a música do Caio Castelo? Num mundo de muitos ruídos e sons, como percebê-la?

Já classificaram meu som com tanto rótulo que se eu fosse dar bola pra isso ia acabar não fazendo mais nada. Acho que o que existe de mais interessante na minha música são justamente os elementos mais espontâneos. Aquelas coisas que ou você ama ou odeia, sabe? Existe uma dimensão mais tranquila, introspectiva, que sempre está na minha voz; e outra mais cheia de nuances e desafios, que procuro construir nos arranjos e harmonias. Nesse próximo disco, a ideia é a síntese dessas três coisas: a atmosfera rock combinada a harmonias e arranjos elaborados com esse cara meio desajeitado aqui cantando na frente.

Você tem preparado um novo disco, Dois Olhos, que foi produzido por Alê Siqueira, responsável por grandes nomes da música brasileira como Arnaldo Antunes e Tom Zé. O que diferencia esse CD do Silêncio em Movimento?

Esse novo disco foi realizado a partir de uma vontade antiga minha, que era gravar um disco num processo de imersão num lugar afastado, focando exclusivamente nisso. Então passamos oito dias na Gargolândia, um estúdio-fazenda no interior de São Paulo que nos acolheu muito bem; só tocando, lapidando e gravando o dia inteiro. Então a energia dele tá muito especial, pois realmente deu conta de retratar, gravar esse momento. Se o Silêncio em Movimento gravei praticamente sozinho, o Dois Olhos mostra meu grupo e eu tocando juntos. Permaneço muito orgulhoso e satisfeito com o Silêncio em Movimento, mas o Dois Olhos vem como um passo adiante, com novos desafios e um grau de minúcia e cumplicidade entre os envolvidos muito maior.

Você colocou esse trabalho para financiamento coletivo na internet. A divulgação do trabalho por este meio tem chegado a novos fãs?

Tem sim, até me surpreendi. Acabou sendo mais uma etapa bem coletiva nesse disco que tem ficado cada vez mais galeroso, ainda bem! É a primeira vez que invisto nesse recurso e tem sido muito positivo, não apenas pelo lado financeiro, mas também pela interação com os fãs que esse processo traz. A campanha está na plataforma Partio, que trabalha exclusivamente com iniciativas culturais. Quem quiser contribuir é só acessar (veja aqui) e escolher o valor e recompensa desejados. Todo mundo sai ganhando, pois ajuda o disco a existir e as pessoas já garantem vários produtos exclusivos entregues na casa delas. Fiquei fã do crowdfunding, tô achando um barato!

 

[+] Conheça mais do trabalho de Caio Castelo clicando aqui e acolá.

[+] Ajude a financiar a finalização do disco Dois Olhos.

[+] No próximo dia 2 de setembro Caio Castelo fará uma crowdfesta, um pocket-show com a presença de artistas convidados. O evento começa a partir das 20h na Toca do Plácido (Rua Castro Alves, 521 – Joaquim Távora – Fortaleza). O couvert vai custar R$10 e as doações a partir de R$30 ganham uma caipirinha especial da Toca. Informações: 99611.1014.

Marina Solon é jornalista, leitora, questionadora e adora uma boa conversa. Escreve também no Mosaico e no Pauta Livre News. Existe virtualmente aqui.

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