EU OUVI: THANK YOUR LUCKY STARS, BEACH HOUSE

//Duo americano lança segundo álbum de inéditas em menos de dois meses e volta ao dream pop do elogiado Bloom, de 2012//

Quando o Beach House anunciou que lançaria um novo álbum de inéditas – o segundo em menos de dois meses – tive dois pensamentos: 1) Ufa! Vamos ver se eles conseguem escapar um pouco do Depression Cherry e 2) Outro disco em tão pouco tempo? Será que eles são capazes de manter o nível de qualidade dos primeiros trabalhos?

A verdade é que Depression Cherry, lançado em agosto, não me conquistou. É um bom disco, é visivelmente representativo de um amadurecimento musical, é Beach House – e isso já seria suficiente! – mas é um passo demasiado distante do que a banda vinha fazendo até então. É como se Victoria Legrand e Alex Scally tivessem abandonado um pouco do dream pop que marca sua trajetória – e que me arrebatou numa primeira audição – e assumido uma atmosfera mais shoegazing.

Cheio de ruídos e distorções, Depression Cherry termina por fugir daquela musicalidade quase etérea de suas produções anteriores, aproximando-se mais de um The Raveonettes lisérgico que de seus próprios discos prévios, como os impecáveis Bloom, de 2012, e Devotion, de 2008. Até a voz de Legrand parece estar em segundo plano, mais ou menos soterrada sob o peso de ruídos que antes surgiam tímidos, acessórios.

E então apareceu Thank Your Lucky Stars, o melhor disco lançado até agora em 2015, minha paixão musical dos últimos dias. As melodias fáceis de Bloom e Teen Dream voltaram em canções mais acessíveis, mais radiofônicas, talvez. Majorette, a primeira faixa, já apresenta uma bateria forte que parecia esquecida no disco anterior, com a voz de Legrand retomando seu protagonismo, mais linda do que nunca, mais segura de si – tanto que a cantora, em todo o álbum, se arrisca em firulas que poucas vezes haviam aparecido na história do duo.

A segunda faixa, She’s So Lovely, quebra a intensidade da canção inicial e mostra que o Beach House passeia com maestria entre as sensações. É uma canção sombria, quase fúnebre, que precisa da voz de Legrand para se dissolver – e se transformar – até atingir uma fluidez agradável, uma atmosfera de sonhos. O dream do dream pop.

Common Girl, a quinta faixa, tem algo de On The Sea, uma das canções mais bonitas da dupla, com acordes revisitados que se estendem por toda a música. Recentemente, em entrevista dada aos fãs do site Reddit, Victoria e Alex comentaram sobre a semelhança entre as duas faixas.

Thank Your Lucky Stars também marca o fortalecimento dos componentes eletrônicos no Beach House. Sintetizadores aparecem com mais frequência, menos discretos que antes, como raios de sol em meio ao céu nublado, numa metáfora que poderia definir adequadamente a trajetória do duo: uma alegria nublada.

É Somewhere Tonight, lindamente retrô, a canção que fecha o albúm. Como uma estrela antiga da era do rádio, Legrand canta triste, entregando-se às batidas lentas e às distorções da guitarra de Scally. Um órgão surge intenso, melancólico, na segunda metade da faixa, marcando oposição com o ritmo ensolarado da música de abertura.

Termino de ouvir Thank Your Lucky Stars sentindo que passeei entre extremos, que a voz de Legrand, em sua timidez esfumaçada, é uma ferramenta preciosa, e que sou eternamento grato ao Beach House por continuar criando músicas que te fazem voar.

Thank Your Lucky Stars, Beach House (Sub Pop Records, 2015)

 …

Jáder Santana é jornalista e editor da Nonata. Acha que toda descrição é redutiva – ou exagerada – e prefere que os leitores tirem suas próprias conclusões. Para saber mais sobre ele, clique aqui.

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