CIDADES INTERNAS #6: A BRASÍLIA DA RAPHAELLE

//A série Cidades Internas chega ao Planalto Central na bagagem da jornalista Raphaelle Batista. Uma visão de quem não somente se perdeu no encanto do céu arrebatador do cerrado brasileiro, mas se permitiu dissabores e comparações//

A cidade traçada por Oscar Niemeyer e Lúcio Costa não fazia parte dos meus sonhos em 2015. Havia povoado, rapidamente, os desejos de futura jornalista numa época em que me imaginava, com frio na barriga, cobrindo os bastidores da política brasileira entre o Congresso Nacional e o Palácio do Planalto. Um tempo em que eu não sabia bem a diferença entre uma instância e outra do poder, nem mesmo o que era jornalismo, política, tampouco Brasília.

Mas em 2015 essa cidade improvável começou a se achegar. Foi, aos poucos, tomando forma e ocupando espaço nas projeções de uma vida melhor que sempre fazemos à certa altura. Porque cansamos do lugar onde estamos ou porque temos filhos ou porque queremos crescer profissionalmente, as projeções sempre vêm.

Quando surgiu a oportunidade de trabalho, não demorei a decidir. Em menos de dez dias estava na capital federal para começar uma vida nova. Incerta, mas nova. De repente, tudo o que eu havia construído minimamente se transformara numa folha em branco pronta para ser escrita. E a primeira palavra desse texto, dessa outra história, era Brasília.

Precisava descobrir a cidade. E comecei por outras palavras: Plano Piloto, Asa Norte, Asa Sul, Superquadra, Comercial. Os setores Bancário, Residencial, Hospitalar, Hoteleiro, de Diversões. As Tesourinhas, Zebrinhas, o Quadrado. As expressões locais vieram depois, bastou que eu ficasse mais atenta. Gostam de dizer que não existe sotaque brasiliense, mas há um jeito afetuoso e bonito de empregar o “véi” ao final das frases e, num cumprimento, perguntar “tá boa?” que não se vê em outras partes do Brasil.

Um ritmo de fala característico que se mistura com os tantos sotaques que se encontram nesse pedaço do cerrado. Mineiros, gaúchos, pernambucanos, cearenses, goianos, cariocas. Demorei a achar brasilienses, é verdade. Mas atribuo mais a um erro comum entre os que chegam – e comigo não foi diferente – do que à falta de nativos.

Moradora da Asa Norte, trabalhava na Esplanada, vez em quando passava pela Asa Sul, às vezes estendia o passo até o Sudoeste. Pronto. Eis a maquete, como uma amiga querida gosta de chamar a cidade, onde quase não conheci nascidos e criados ali. É que essa parte mínima e verde, com ipês e flamboyant’s quebrando a aridez, um dos maiores parques urbanos do mundo a poucos metros de casa, prédios antigos e charmosos obedecendo até hoje uma disciplina urbanística admirável de seis andares, é apenas um pedaço da Brasília real.

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Uma porção do Distrito Federal que é privilegiada e rica, de difícil acesso por quem depende do transporte público e onde quase não se vê a pobreza. É claro que há pobres e miseráveis no Plano, mas quase escondidos, como se não tivessem o direito de tirar o conforto, ainda que espiritual, dos moradores em sua Ilha da Fantasia. São intrusos, obviamente. Não se sentem parte nem donos daquela paisagem.

A cidade do trânsito fluido, com suas avenidas largas e ruas limpas, é só a sala de uma casa que esconde rachaduras em outros cômodos. Brasília é muito mais segura, me disseram. Mas a incidência de estupros na Asa Norte, por exemplo, assusta. O sistema público de saúde do DF é um dos piores do Brasil. E nas cidades-satélites, no Entorno, a paisagem não é tão limpinha e segura quanto o Plano Piloto faz acreditar. Em lugares como o Paranoá ou Recanto das Emas a desigualdade e a violência saltam aos olhos. Esbarram nos moradores, brasilienses, que não podem pagar o aluguel altíssimo do quinhão de terra mais tranquilo e arborizado do Planalto Central.

Ainda assim, com todas as contradições, Brasília é uma cidade de afetos genuínos. Um lugar onde se é acolhido sempre, invariavelmente, quando se diz que acabou de chegar. É como se todos soubessem as agruras que a cidade pode conter e quisessem se desculpar num sorriso sincero acompanhado das boas vindas. A generosidade carrega todos os sotaques também. Assim como a disposição de ajudar e tecer laços. Família e amigos, para muita gente, são a mesma coisa nesse lugar.

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A cidade carrega o DNA das lutas sociais. E isso pulsa e enche os olhos de quem não tem medo da rua. Se todos os dias temos notícias de Brasília que só remetem à corrupção e à desesperança política, também é onde um outro movimento de ocupação do espaço e dos direitos se inicia ou ganha força. Brasília tem alma sambista, carnaval, parquinho lotado de criança, piquenique, pessoas em situação de rua ganhando dignidade por meio de uma revista cultural linda chamada Traços.

O que falta à minha Brasília é o mar. É menos ordem e mais verdade. É mais calor, mais umidade, mais abraço apertado e sorriso largo. Falta o por do sol da Praia de Iracema. A feijoada ao som do chorinho no Passeio Público. Faltam a Fertinha e seus encontros. As lembranças da infância, os lugares impregnados de histórias íntimas. Falta o deparar com os problemas da cidade sem aviso prévio, sem fronteira, e não raro lidar com uma bela vaia. Ou ocupando parques e escolas, fazendo greve, indo pra rua. O que falta é Fortaleza pra eu abraçar e sentir saudade da capital federal acolhida pelo meu lugar.

É por isso que retorno, como na música de Alceu Valença.

Raphaelle Batista tem 28 anos, nasceu em Fortaleza, é mãe da Júlia e uma jornalista apaixonada.

(Fotos: Mariana Leal)

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