CIDADES INTERNAS #7: A SÃO PAULO DA JULIANA

//A série Cidades Internas vai mais uma vez até São Paulo para provar mais uma visão das muitas que compõem a cidade mais populosa do Brasil. Hoje quem nos leva até lá é a jornalista Juliana Diógenes//

Era 11 de abril de 2013 quando voei pela primeira vez sem passagem de volta. Cheguei no início do outono. De mochila nas costas, alcancei a porta de saída de Guarulhos deslizando no piso ensebado do aeroporto apenas uma mala, com meia dúzia de roupas de frio. Sozinha.

Semanas antes de pegar o avião para São Paulo e deixar Fortaleza, a vida era sossegada e confortável. Recém-formada, com um livro-reportagem e uma aventura internacional cumpridos, trabalhava como repórter no jornal onde sempre quis estar. As preocupações, mínimas, duravam poucas horas. Em casa, pelo menos uma refeição diária se dava em meio a longos debates com meus pais e meu irmão. Vez por outra, fazíamos viagens de carro. E com alguma frequência, visitava as avós para tomar café acompanhado de tapioca ou bolo Luís Felipe. Com os amigos, as programações usuais. Uma rotina harmônica, previsível.

Para falar sobre a minha São Paulo, é importante retornar à minha Fortaleza. Porque a morada em qualquer cidade nova, distante da origem, é uma disputa entre o desejo de ficar e a frequente vontade de partir. Quando surgiu a chance de cursar uma pós-graduação na capital paulista, confesso que não esperei tanto apoio da família, dos colegas de trabalho e dos amigos mais chegados. Imaginei que haveria resistência. Recebi incentivo. Na minha última memória de conversas nas despedidas, estou em silêncio, decidida a absorver os comentários mais estimulantes. Entre eles, escuto: “Engole a cidade inteira” e “Tu não vai voltar para Fortaleza. Vai acabar ficando em São Paulo e vai gostar” – “duvido”, pensei, “no final do ano, quando terminarem as aulas da pós, eu volto para Fortaleza”.

Mais de três anos depois, concluo que ficar foi um “acidente” de percurso – jamais um sonho. Talvez por não ter planejado como novo lar, custei a fincar raízes. São Paulo sempre foi difícil. O céu, constantemente opaco e cinza, que às 9 horas da manhã ainda não tinha amanhecido. O jeito reservado de parte dos paulistas – que por vezes mascara um individualismo em nome do “respeito” à vida pessoal dos outros. O metrô, com tantas linhas, estações e ligações, onde me perdi algumas vezes. O trânsito, imprevisível, e a antecedência de pelo menos 40 minutos para chegar a qualquer lugar. O estereótipo do nordestino, que no início me irritava. Na cabeça dos primeiros paulistas com quem convivi, todos que descem do Nordeste gostam de forró (e sabem dançar), já sofreram com falta de água na torneira, mergulham todo dia no mar depois do trabalho e têm a pele, no mínimo, morena. Até hoje, alguns ainda perguntam se sou mesmo cearense: “Assim? Tão branquinha?”.

As roupas estampadas, sempre coloridas, que na rua recebiam olhares tortos – deixei de lado muitas delas. As roupas de frio, que eu não sabia comprar e menos ainda combinar. O suco de cajá, o cuscuz, qualquer comida com queijo coalho, a castanha, a cocada, o peixe assado, que não estão em todos os cardápios. As expressões cearenses, incompreensíveis para a maioria dos ouvidos – e suprimidas por mim, com constrangimento besta. A letra “e”, foneticamente aberta para os nordestinos, que quando soletrada dentro de uma palavra é entendida por alguns paulistas como – pasmem – “r”. No primeiro ano, entrevistei uma personalidade do meio político super famosa e ouvi dessa pessoa que, se eu quisesse trabalhar em São Paulo, precisaria “melhorar” meu sotaque – o único preconceito do qual fui alvo nesse período.

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São Paulo pode ser dividida entre quem corre nas escadas rolantes da estação de metrô e quem aguarda parado do lado direito. Por causa dessa regra de convivência, rigorosamente respeitada, criei uma agonia estranha. Quando estou em Fortaleza, deixo a esquerda livre nas escadas do shopping. Uma cena patética. Porque ninguém corre as escadas como o paulista. Até olho ao redor em busca de outros tão impacientes quanto eu diante daquela situação. Mas estão lá somente as pessoas com o corpo largado, ocupando toda a extensão do degrau, com uma invejável expressão despreocupada.

Aqui, sempre debochei dos meus amigos por esse hábito de escalar as escadas rolantes, até que me flagrei copiando o modelo apressadinho. É que, em São Paulo, as distâncias são longas e cinco minutos de atraso podem provocar micro-desordens em cadeia. Dia desses, no Terminal Rodoviário Palmeiras-Barra Funda, o motorista do ônibus fechou as portas e já deixava o ponto, mas reabriu ao perceber uma moça correndo. Ah, a satisfação no sorriso daquela mulher, a sensação de vitória. É muito diferente o rosto aliviado do paulista que vê a porta do transporte público se reabrindo. É quase um gozo. Com o mesmo prazer sorri o usuário do metrô, que ao som do alarme de partida corre e consegue entrar no vagão.

São Paulo também é exagero. Mansões do Morumbi e barracos de Paraisópolis dividem o mesmo quarteirão. De tão gigante, não raro é preciso pagar pedágio dentro da cidade para acessar os extremos. São viadutos, pontes, vias expressas – camadas de asfalto que comeram os rios. O odor azedo dos rios Tietê e Pinheiros, acentuado no calor. Os metrôs abarrotados em dias normais, mas vazios nos feriados. Frio e calor extremos – lembro de uma cena no meu primeiro verão, de 2014, em que estou enfiando a cabeça no freezer.

Filas, sempre as filas, uma espécie de termômetro para a qualidade de qualquer evento. Ingressos esgotados em minutos. Em uma só noite de sábado, a cidade é palco de três, quatro, cinco shows com artistas famosos. Essa variedade cultural talvez seja motivo de inveja para pessoas de outros estados. Mas quem mora em São Paulo naturaliza e aproveita menos do que poderia. A relação é semelhante à do cearense com a praia: está sempre ali, a poucos minutos de distância, não precisa se avexar. Nunca fui fã de praia, até morar em São Paulo. É triste o vazio que se instala pela ausência do mar. Não há substitutos afetivos para o barulho, a brisa, o cheiro salgado. Em uma cidade sem litoral e com tantos prédios a preencher o céu, a vista não descansa, estressa. Falta o horizonte limpo, linear e azul do mar onde deitar os olhos.

Falar sobre São Paulo é lembrar que já dividi casa com uma artista plástica paulistana, um chinês de quase 100 anos reformado pela ex-mulher e – quase patologicamente – viciado em yakissoba e um rapaz chamado Henrique de quem nunca ouvi a voz. Hoje, moro com dois mineiros. Não é preciso fazer esforço algum para encontrar tanta diversidade. Acho que é um pouco como gostaria que fosse o restante do mundo: cheio de diferenças, logo ali, a metros da sua mesa, colado em você no metrô ou na fila do cinema. A variedade de gentes e lugares talvez seja a característica mais adorável da cidade. São Paulo tem pelo menos três boas opções de saída para cada tipo de humor. Em um desses domingos, decidi que precisava esvaziar a cabeça e fui caminhar no Parque Ibirapuera. Encostada em um tronco de coqueiro – sem coco -, observei, fotografei, li, escrevi e ouvi música. No mesmo domingo, teve ainda quermesse, Paulista aberta e café na Augusta.

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O centro da cidade é um dos meus bairros preferidos. Eu e um amigo costumamos dizer, quando caminhamos na Avenida São João, que o “glamour decadente” das edificações na região central é mágico. O centro também é lugar de muita variedade gastronômica: no bairro Santa Cecília, é possível encontrar a poucas quadras de distância um japonês (o dono é cearense) bom e barato, um árabe de família libanesa com temperos incríveis e um nordestino, que à noite vira um bar super honesto.

Engana-se quem supõe nos paulistas o preconceito contra nordestinos. A cidade, em geral, acolhe. A maioria das pessoas é fascinada pela nossa cultura e pelo sotaque. Há paulistanos que não reconhecem o próprio traço na forma de falar. Já ouvi de alguns paulistas assim: “Adoro quem tem sotaque”. Pois é, todos temos – inclusive eles. Nunca serei capaz de falar porta com o “r” saltado. Ou Paulissssta. Os ouvidos já acostumaram com o “r” importante no meio da palavra e aprendi a gostar de ouvir, mas não consigo reproduzir. Várias gírias entraram no vocabulário: rolê, treta e mano. Também já ensinei o aperreada, valha, guenzo, bichinha. Habituada aos modos paulista e mineiro de falar, estranho quando escuto uma conversa entre cearenses na sala de espera do aeroporto ou uma notícia na voz de repórter do meu estado na TV. Sonoridade e ritmo se agigantam, e percebo fortemente o nosso “e” aberto.

Como estratégia de sobrevivência, evito comparações entre Ceará e São Paulo. Falho com frequência na tentativa. A morada em uma cidade sem família é como dar braçadas contra a maré. Você consegue interromper o exercício, parar e tomar fôlego. Mas para seguir o curso, só restam duas alternativas: ou segue nadando com pressão nos ombros ou acaba sendo engolido pela gravidade. Já morando na capital paulista, visitei Fortaleza quase dez vezes. Em quase todas, chorei dentro do avião que decolava na pista do Aeroporto Internacional Pinto Martins, em direção a SP.

E, de tanto ir e vir, o sentimento de lar acabou ganhando novos contornos. Já me imaginei morando por 10 anos em São Paulo, já quis voltar para Fortaleza imediatamente. Sendo uma cidade dos exageros, São Paulo também desperta sentimentos extremos: é uma cidade que entrega muitas gentes e lugares, mas cobra na mesma intensidade. Por bastante tempo, me perguntei qual é o meu lugar. Um eco de questões ainda sem respostas que, quando não estou distraída com os encantos de São Paulo, perturba o juízo como o zumbido de uma muriçoca no pé da orelha – ou pernilongo, para os paulistas. O que é “lar” e o que significa “ir para casa”?


Juliana Diógenes é jornalista que vive São Paulo pelo olhar de repórter. Sagitariana com ascendente em aquário, tem 26 anos, ri demais e ama deitar em uma rede.

 

(Fotos: Érika  Neves)

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