O MITO DA ESCOLA SEM IDEOLOGIA

//O que são e quais as consequências das chamadas Escolas Sem Partido na educação brasileira? Há diferença entre orientar e doutrinar? Um ensaio sobre o lugar do pensamento crítico na educação//

 

É comum que os discursos mais infames, mesmo os desbotados pelo tempo, ainda chamem atenção e despertem os ânimos daqueles que se deixam seduzir pelo poder que a demagogia e o populismo carregam consigo.

Uma manifestação dessa mentalidade que vem ganhando força no Brasil atualmente é a bandeira da Escola sem Partido. Os que defendem essa ideia constatam que a educação em ciências humanas que as escolas, principalmente as públicas, dão aos nossos filhos está fora dos padrões. Segundo eles, trata-se de algo enviesado e fora do real objetivo que se almeja alcançar com a educação de qualidade. Alguns ousam mais e afirmam ser um ensino doutrinário, onde docentes envenenam as mentes dos jovens com falsas verdades, causas perdidas e ideias subversivas da esquerda política.

Um professor de história, geografia ou filosofia não deve incutir nada na cabeça dos seus alunos, com exceção do conteúdo estrito da disciplina que leciona. Se o mesmo ultrapassar esta imperceptível linha, estará pregando opiniões e conclusões próprias para os inocentes que irão absorvê-las e colocar em risco o futuro da nação. Em suma, um professor deve ser neutro, objetivo, centrado e não reproduzir mensagens ideológicas na sala de aula. Caso contrário, deve se ausentar ou ser afastado da sua função e procurar outra coisa para se ocupar.

Os idealizadores dessa bandeira retomam duas figuras tradicionais do ambiente escolar que há muito tentamos desconstruir e que já estamos cansados de saber que não produzem os resultados esperados: a imagem do professor como um mero reprodutor de conteúdo em aulas expositivas (e enfadonhas) e a dos alunos como receptáculos vazios e estúpidos que precisam ser preenchidos pela grande sabedoria do mestre. Em seguida, pregam a fé de que há um conhecimento verdadeiro, único, não ideológico e puro, totalmente flutuante em relação aos inúmeros fatores sociais, culturais, psicológicos, econômicos etc., e que podemos alcança-lo se houver boa-fé. Em contrapartida, existiria um suposto saber falso, negativo, completamente ideológico e perigoso que não possui validade como conhecimento, mas que está a serviço de interesses da esquerda política.

As perguntas que devemos realizar são: existe alguma maneira de constatar que algum saber nas áreas das humanidades não seja ideológico? Há algum conhecimento que não esteja, para mais ou para menos, dotado de características que não o coloque em acordo com a direita ou com a esquerda política? As próprias definições de esquerda e de direita, a depender do sujeito que as define, não são completamente partidárias?

Não existe maneira de se tentar explicar a história da humanidade, o funcionamento da sociedade, suas manifestações culturais e os cenários geopolíticos sem adentrar em tópicos bastante subjetivos, contraditórios, paradoxais e profundamente vinculados a correntes políticas e filosóficas que estão frequentemente em luta contra outras correntes. A nível de exemplo, a Invasão do Iraque pelos EUA (2003) contada apenas pela história oficial dos americanos se torna um evento bastante simples e banalmente explicado em gritos patrióticos, mas é com as vozes da contestação e de outras correntes que encontramos outras motivações, fatores e causas que deixam o cenário desse evento muito mais complexo e melhor esclarecido.

Os defensores da Escola sem Partido pretendem, do topo de seus altares milenares da sabedoria, alcançar a eliminação dos embates e dos conflitos intrínsecos da sociedade, estabelecendo assim um ideal de ordem e de harmonia social. O que eles não percebem – ou agem como se não percebessem -, é que esse posicionamento já é ultra partidário, completamente ideológico e está à serviço das visões hegemônicas vigentes, favorecendo diretamente os interesses dos grupos dominantes.

Se uma escola como essa vier a se concretizar, aquilo que for dito e não se enquadrar nos parâmetros definidos será rapidamente taxado de subversivo, insurgente, perigoso e passível de ser silenciado e excluído. Toda via para o florescimento do senso crítico será bloqueada, tornando nossos jovens mais passivos frente aos atos arbitrários que nos governam.

Esses defensores de uma educação tão fechada não querem uma escola que prepare nossos jovens para a vida e que os ensine a pensar. Querem uma escola que simplesmente os ensine a repetir e reproduzir. De preferência, de cabeça baixa e sem contestações, como bons papagaios.

Imagem principal: Fred Dufour / AFP / Getty

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Rodrigo Barros é cientista social, com um pé na filosofia e outro na psicanálise. Escreve no Colunas Tortas e no Pauta Livre News.

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