CIDADES INTERNAS #8: O RECIFE DA VANESSA

//Cidades Internas faz parada em Recife. Para além de frevo, carnaval e bolo de rolo, a jornalista Vanessa Campos traça um panorama de quem nasceu em Pernambuco e leva consigo o carnaval nos bolsos pelos quatro cantos do Brasil//

Ao contrário do que algumas pessoas imaginam, eu não nasci em Recife. Sou filha da Zona da Mata Sul pernambucana, parida na cidade de Palmares pelo simples fato de que na cidadezinha vizinha, em que moravam meus pais e minha irmã, não havia hospital preparado para uma cesárea. Recife, na minha infância, era o meu destino de férias escolares para visitar os parentes. Naquela época eu não tinha dimensão do tamanho da cidade. Recife, então, era para mim as brincadeiras de polícia e ladrão e queimada com os primos na Imbiribeira, os cinemas no centro da cidade (Art Palácio, Veneza, São Luiz), os banhos de mar em Boa Viagem, quando ainda não existiam os ataques de tubarão.

Aos meus doze anos mudamos para lá, após a morte de meu pai e aposentadoria de minha mãe. A família morava toda em Recife, era lá que estavam as escolas e as universidades nas quais queríamos estudar. Moradora então da periferia, lembro da sensação de liberdade em pegar, sozinha, para ir às aulas, um ônibus que atravessava metade da cidade acompanhada do mar da Avenida Boa Viagem. Até hoje essa é a minha maior saudade da cidade maurícia: o caminho banhado pela água salgada que enchia meus olhos e narinas todos os dias.

Na adolescência a minha rotina era muito casa e escola, no máximo, visitas aos parentes e os passeios para compras na “cidade”, como chamamos o centro por lá. Ah, o centro… uma das minhas grandes paixões! Descobrir o seu comércio, como se comunicam as pessoas, o que vendem, quanto custa, onde saio se entrar naquela rua, quanto consigo pechinchar por determinada mercadoria. Dessas andadas tenho histórias cômicas como ficar conhecida pelos vendedores da Rua Direita, a rua dos tecidos, de tanto negociar preços para elaborar as minhas fantasias de carnaval. Enchi tanto a paciência de um gerente dessas lojas que não apenas me vendeu pelo menor valor como ainda me ofereceu emprego pelo poder de negociação. Eu tinha 15 anos, não pude aceitar.

Os passeios invariavelmente acabavam numa lanchonete próxima da Igreja do Carmo, a Sertanense, em que me permitia vender uns passes estudantis ali pela praça e comprar uma generosa cartola, saboreada devagar, esticando o prazer do doce, enquanto observava o movimento do local e todas aquelas figuras que só o centro da cidade pode te apresentar.

Acho que só comecei a descobrir Recife efetivamente quando entrei na faculdade, ali nos meus 17 anos. Agora estagiava, tinha algum dinheiro a mais e estudava na Boa Vista, ou seja, estava perto dos sebos, das lojas de discos, de todos os botecos mais boêmios, mercados, teatros, cinemas e um corredor de ônibus que me levava para qualquer parte da cidade. Nessa época descobri o cinema do Teatro do Parque, a Fundação Joaquim Nabuco, o Pólo Pina e a Soparia, bar que marcou época e que era meu destino nas terças, quintas e sábados, com os shows ou apenas algumas fichas para a radiola que tocava a cena Mangue Beat, muitas das vezes tomando uma cerveja gelada para aplacar o calor daquelas noites acompanhada pelos próprios músicos locais.

Com a decadência dos points alternativos dali, migramos para o Recife Antigo e uma das coisas mais bonitas em ser pernambucana é observar a transformação do ambiente e das pessoas quando nos apropriamos da nossa cultura. A revitalização dessa área foi uma loucura de boa, depois entrando em decadência e agora voltando a dar sinais de ocupação cultural. A cultura pernambucana é o que me norteia nessa vida e essa deve ser uma das principais causas da nossa megalomania: somos o melhor estado, com a melhor música, a maior avenida em linha reta da América Latina, inventamos e “patenteamos” o bolo de rolo, o queijo manteiga com raspa de tacho, como não amar esse povo?

Hoje, morando há 12 anos fora de Recife, minhas visitas à cidade demoram bem mais do que eu gostaria. Visitar os mercados públicos e sua gastronomia maravilhosa e almoçar ou tomar café da manhã neles, ou ainda aquela cervejinha no sábado ou no fim de tarde durante a semana é um dos meus programas favoritos. Madalena, Boa Vista, Casa Amarela, São José, Encruzilhada. Comer macaxeira com charque, arrumadinho, sarapatel, tomar caldinho de feijão e uma lapada de cana. Pronto. Tá feito o seu programa.

Os bares, os casarões, o carnaval que enche tudo de cor, os ensaios de maracatus no Recife Antigo, os jovens e seus skates que ocupam o pátio do Marco Zero, os porres de vinho barato na Rua da Moeda, as festas na Rua Tomazina, os blocos carnavalescos em cada esquina, os papa angus, o maracatu rural, o caboclinho, o frevo que aprendemos a dançar já na escola, as boates caras, os shows do Arsenal da Marinha, o observatório da Torre Malakoff, o parque das esculturas com o falo de Brennand despontando pro céu no meio do Capibaribe, o forró na Sala de Reboco, os museus, os ateliês, as pontes, o cais. As torres do Estelita. A marcha da maconha, das vadias, o acampamento contra o golpe no Derby. A resistência dos recifenses.

Da última vez em que estive na cidade, há pouco menos de um mês, me peguei emocionada visitando o Museu Cais do Sertão e relembrando um pouco da minha própria história, de nordestina, de periférica, de retirante até. Saber de onde se é, onde ficam as suas raízes, mesmo aéreas como as do mangue, é uma das coisas mais importantes para lembrar-se, penso eu. Recife é a minha referência maior, o único local pelo qual posso passear na minha mente e saber das suas ruas, dos seus cheiros de mangue, de mar e de esgoto, sem precisar estar lá. É que mesmo com tanto gosto que peguei pelo mundo e sem querer voltar, Recife é sujeito e predicado, é a cidade que está em mim.

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Vanessa Campos é jornalista, pernambucana, moradora de Brasília e madeira de lei que cupim não rói.

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