CIDADES INTERNAS #9: O RIO DE JANEIRO DO RENATO

//Para além do Cristo Redentor, do calçadão de Copacabana e do Pão de Açúcar, o jornalista Paulo Renato Abreu descobriu um Rio de Janeiro muito particular. Uma “cidade errante”, cheia de encantos incomuns e curiosos, e a que vamos conhecer hoje na série Cidades Internas//

Sabe o cartão-postal mostrando o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar? É pouco. Muito pouco. O Rio de Janeiro que me encanta todos os dias escapa das belezas turísticas. Olhando para todos os lados como quem tenta captar tudo, eu não alimento a ideia de que vivo numa cidade maravilhosa. O Rio é, antes de tudo, uma cidade errante. Colorida, suja, bagunçada, amistosa, livre.

Cheguei em abril último para estudar por aqui. Sozinho, vindo de Fortaleza, experimentei pela primeira vez o que é mapear um local novo sem ser guiado por afetos. Até então só tinha descoberto cidades pelo olhar de amigos e amores. Aqui foi diferente e, no primeiro táxi tomado, um baque: a grosseria. O carioca é conhecido por ser briguento e faz jus à fama, mas não é só isso. Acho que o carioca é intenso e o bate-boca cotidiano é só mais uma forma de expressar essa força. Pois bem, o taxista me criticou pelo tamanho da minha mala, falou mal do Ceará e ainda debochou das travestis que estavam ali nas esquinas da Rua da Lapa. Ele nem sabe, mas o primeiro “boa noite” que ouvi na nova vida foi de uma dessas meninas, que agora já sorriem para mim toda noite quando eu passo por lá.

Passados quase três meses e já acostumado com as brigas e os afetos gratuitos, agora descubro a cidade a partir do meu bairro, a Glória, que é um grande quase (por isso mesmo, achei tão a minha cara). É Zona Sul, mas é quase Centro. É próximo ao Catete, mas é quase Lapa. É noturno, cheio de cervejas para tomar, mas também é bem residencial, quase silencioso demais. Por aqui, entre a rua Santo Amaro e a Cândido Mendes, costuro meu novo lar subindo e descendo as ruas no passo das velhinhas que não querem ajuda para levar as sacolas.

As feiras de rua são meus novos amores. A dita desorganização casa perfeitamente com o espírito da cidade. A da Glória é uma lindeza todo domingo e acho massa ver o tanto de gente comprando flores a cada semana. Parece que é sempre dia das mães. A feira da Praça São Salvador, nas Laranjeiras, é outra maravilha. Samba, choro, comida mais ou menos, cerveja no isopor: tudo que eu preciso num domingo.

O patrimônio histórico está longe de ser bem cuidado, mas surpreende. Pelo menos aos meus olhos – que até hoje são os mesmos do menino que atravessava a ponte do Rio Ceará e se encantava com os prédios altos de Fortaleza que não tinham na minha Caucaia. Aqui é tudo muito grandioso, os muros nos lembram sempre que já foi a capital federal. No meio de uma rua qualquer, sempre desponta um prédio enorme e velho (e movimentado, o que é o melhor).

O Rio explode em desigualdade social e as ruas ainda refletem muito da cidade que João do Rio contou há um século. Os mesmos marginais continuam às margens e muitos sãos os passos que parecem perdidos na busca por trocados e moedas. Lembro sempre das palavras cantadas por Jaloo, um paraense que foi cantar tecnobrega em São Paulo: “É fácil se emocionar com mundo internacional, mas na esquina de casa mendigo mora em jornal”. O Rio é uma cidade global, os muitos idiomas que cruzam as faixas de pedestres dão conta disso. Grandes eventos, como a Copa do Mundo e agora as Olimpíadas, intensificam ainda mais essa noção de que se trata de uma megalópole. É desesperador, porém, perceber que os olhares (os nossos e os dos governos) continuam voltados para sustentar um cenário mundial e pouco preocupados com os que sofrem na calçada. A consequência disso acaba sendo o movimento que chamo carinhosamente de Carioca Apavorado (e aqui incluo quem me desanima toda vez que saio dos limites da Zona Sul). Só que sou latino, nordestino e caucaiense, gosto mesmo é da dita margem.

O Rio da novela do Manoel Carlos não é meu, mas gosto de visitá-lo, é bonito de ver. Como abandonei o hábito de ver TV por aqui, é quase como ir ver a novela das nove ao vivo. Andar na orla, nas praias famosas, dá a falsa ilusão de que a vida-lazer é a tônica da cidade. É verdade que aqui eles aproveitam melhor a areia e o sol, independentemente de dinheiro, mas muita gente nem consegue chegar ao mar. Se perdem nos engarrafamentos e nos medos de violência (ou pior: por “ter perfil de quem vai cometer um arrastão numa praia do Rio”, como canta o rapper Rashid, e, por isso mesmo, nunca foi bem-vindo).

O Centro parece se movimentar como uma coreografia bem ensaiada do Edisca ou da Deborah Colker. Tudo se move com uma fluidez incrível. Todo mundo andando rápido, subindo e descendo as escadas da estação Carioca do Metrô. As bancas de vendas parecem desorganizadas por um cenógrafo caprichoso. A zona portuária (que está sofrendo com um monte de reforma e, mais uma vez, com a “higienização”) também em encanta. Lá tem desde o clean Museu do Amanhã à mistura que é o samba da Pedra do Sal às segundas.

A “pobreta da Urca” é outro presente carioca. Lá é a opção “não gourmet” de aproveitar a Mureta da Urca. A vista é linda, em especial no fim de tarde. Aliás, o Rio me parece um constante fim de tarde. Em dias de chuva, a impressão é que o relógio marca 17 horas o dia inteiro. Quando faz calor, o céu é cheio de cores que me lembram daquele momento quase mágico antes das 18 horas. Numa metáfora gramatical, costumo dizer que o dia é um ponto de exclamação, a noite é o ponto de interrogação e o fim da tarde é reticências. O Rio, para mim, é isso: reticências.

***
Renato Abê é jornalista e dramaturgo. Graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo na Universidade Federal do Ceará, ele cursa atualmente pós-graduação em Direção Teatral na Casa das Artes das Laranjeiras. Formado como ator no Curso de Iniciação Teatral Acontece, é autor de textos como Acordados – que cumpriu temporada no Theatro José de Alencar, em Fortaleza – e Castanha – vencedor do prêmio nacional Jovens Dramaturgos do Sesc 2016.

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