CIDADES INTERNAS #10: A PARNAÍBA DA ISABELLE

//Hoje chegamos até Parnaíba, no Piauí. Para além do famoso Delta, conhecemos uma cidade de encantamentos e emoções guardadas na visão da jornalista Isabelle Leal//

Quando criança eu pensava que com o passar dos anos Sobral e Parnaíba se desenvolveriam e virariam cidades vizinhas, diminuindo os mais de 200km de distância e também a saudade que apertava o coração a cada partida. Nasci no Ceará, mas foi em Parnaíba que aprendi a viver. Aos quatro anos, provavelmente sem entender o significado de viver em outro lugar sem família ou amigos, juntei as Barbies, os livros e percorri pela primeira de inúmeras vezes o trajeto que me levaria ao meu novo lar. No início dos anos 1990 a estrada ainda era carroçável e o cabelo duro e repleto de poeira vermelha era lembrança do caminho percorrido com muitas variações da pergunta “tá perto?” feitas incansavelmente por mim e por minha irmã.

A cidade litorânea de avenidas largas não me lembra muito de minha terra natal, apesar das comparações constantes (minhas e dos outros). A Parnaíba daquela época era o lugar ideal para se criar os filhos. Pequena, mas com bons colégios. A São Sebastião, avenida principal, nem semáforo tinha até poucos anos atrás. Foi na escola que aprendi um pouco mais sobre a cidade onde vivia, as glórias do passado e seus monumentos. O hino da cidade até hoje me enche os olhos de lágrimas. Mas foi em casa que aprendemos a viver Parnaíba. Nos passeios ao centro da cidade meu pai explicava a origem dos casarões, das paredes de pedra do Porto das Barcas, do dourado do altar da Catedral. Isso tudo entre a parada obrigatória no bar do tio Walter e a passada na Banca do Louro pra comprar revistas e saber das novidades da cidade.

Foi em Parnaíba que vi o mar pela primeira vez. Fui criada naquelas areias e me orgulho em chamar aquele trecho pequeno de praias piauienses de “meu litoral”. A infância foi em Atalaia, a adolescência no Coqueiro, e agora sempre que posso fujo para Barra Grande, um paraíso ainda pouco explorado pelos turistas. Apesar de nenhuma dessas praias serem parte do território da cidade, são as mais populares entre os moradores. A Pedra do Sal com suas rochas, farol e mar bravio, é a única praia parnaibana, mas a pavimentação ruim e a falta de incentivo deixam esquecida uma das mais belas praias que já conheci.

Se de um lado Parnaíba é mar, do outro é rio. A cidade é porta de entrada para o maior delta em mar aberto das Américas, informação que eu adorava compartilhar para impressionar os visitantes que sempre enchiam nossa casa. O Rio Igaraçu, um dos braços do Delta do Parnaíba, banha a cidade. A Beira Rio, com seus clubes e restaurantes, abriga muito da vida noturna da cidade. Muitos vão por lá jantar, ouvir música nos bares, paquerar na mureta que dá para o rio ou contar a lenda do Cabeça de Cuia para os turistas. A ponte que cruza o rio e dá acesso à Ilha Grande de Santa Isabel deveria ser programa obrigatório para quem quer entender a beleza da cidade vista de cima.

Hoje Parnaíba vem se firmando como cidade universitária. A Universidade Federal do Piauí, em cujos corredores muito já me perdi na infância, nem parece mais a mesma universidade na qual adorava surpreender meu pai no meio de suas aulas. O potencial de crescimento é gigantesco, mas parece faltar vontade de fazer de Parnaíba a cidade que ela merece ser. Não sou filha daquela terra, mas sonho em vê-la desenvolvida e ainda assim acolhedora. Bem estruturada para receber turistas o ano todo, mas que todos continuem a respeitar a faixa de pedestre sem ser necessário um semáforo junto indicando pare.

A minha Parnaíba tem paradas obrigatórias em todas as visitas. Tem o sorvete do seu Araújo, o pão da Super Pão, a batata recheada da Bell’Itália. Tem também abraço de mãe, carinho de amigos que viraram família, banho de mar no Itaqui pra energizar. Visitar Parnaíba é encontrar lembranças em cada esquina, conhecidos em cada parada. A cidade onde dei adeus ao meu pai e minha irmã poderia ser um lugar de saudade, mas é lá que os sinto perto. Meu pai me ensinou a amar Parnaíba e é pra lá quero sempre voltar.

***

Isabelle Leal é jornalista graduada pela Universidade de Fortaleza e trabalha com Marketing. Assina a coluna Trends aos domingos no jornal O POVO. É sobralense, criada em Parnaíba e moradora de Fortaleza, vive com rodinhas nos pés buscando um novo destino para explorar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s