MELANCIAS E LIVROS QUEIMADOS

//Chega ao Brasil Açúcar de Melancia, livro fundamental de um dos principais nomes da contracultura norte-americana do século passado//

No vilarejo de euMORTE, o sol muda de cor a cada dia, os rios têm um centímetro de largura e quase tudo é feito de açúcar de melancia. Seus habitantes têm comportamento imprevisível e posturas assustadoras. O conto de fadas beatnik criado em 1964 por Richard Brautigan, autor do peculiar Pescar Truta na América, chega ao Brasil pela editora José Olympio com tradução para o português do escritor Joca Reiners Terron.

Foi esse o ambiente distópico e surrealista que Brautigan escolheu para situar a narrativa cheia de referências – mais ou menos escondidas, mais ou menos captadas pelos leitores – de Açúcar de Melancia. Por meio de um narrador que nunca assume seu nome, conhecemos os fragmentos de histórias e rotinas dos moradores de euMORTE, vilarejo que subverte seu caráter exótico ancorando sua ordem em noções clássicas de trabalho e descanso.

Ícone da contracultura norte-americana dos anos 1960, Brautigan faz uso de uma linguagem direta, quase pueril, recheada de humor negro, paródias e sátiras, para ilustrar o estado de espírito de sua geração. “Ele escreve de um jeito muito simples, mas é uma simplicidade enganosa, repleta de brincadeiras com a lógica que se aproximam da poesia surrealista e da fala infantil, e que se apropria da maneira de pensar que às vezes as crianças têm”, argumenta Joca, que convenceu a José Olympio a publicar duas obras do autor – Pescar Truta está em processo de tradução.

Questionado sobre os motivos para a pouca difusão de Brautigan no meio literário nacional – sobretudo se em comparação com a fama de nomes como Allen Ginsberg e Jack Kerouac, por exemplo -, Joca pondera sobre o que é falado e o que é lido. “Ele não é tão lembrado quanto os beats da primeira leva ou Bukowski, sem dúvida, mas não creio que Ginsberg e outros poetas beats sejam lidos. São publicados, sem dúvida, se são lidos é outra questão. Na história da literatura o que não falta é autor esquecido”.

Referências e inspirações

Nascido em 1935, Richard Brautigan teve uma vida difícil. Abandonado em um quarto de hotel aos seis anos ao lado de sua irmã, jogou uma pedra na janela de uma delegacia para ser preso aos 20, porque não aguentava mais sofrer de fome e frio. No mesmo ano, foi levado até um hospital, onde foi submetido a terapias com eletrochoques como tratamento para seu diagnóstico de esquizofrenia e depressão.

Começou a escrever poesia e histórias curtas quando ainda estava internado e em 1967 lançou Pescar Truta na América, seu livro mais conhecido, que alcançou a marca de dois milhões de exemplares vendidos na época. Por aqui, o romance só foi publicado em 1991, em edição atualmente esgotada da Marco Zero. Escrito em 1964, Açúcar de Melancia só seria lançado em 1968. No Brasil, esta é sua primeira edição.

“O livro é uma antecipação da derrocada do sonho e das utopias do movimento Flower Power”, afirma Joca Terron, fazendo referência ao slogan hippie que se tornou símbolo da não-violência e que aparecia como contraponto para a Guerra Fria, o Macartismo, os conflitos no Vietnã e o escândalo de Watergate. “Açúcar de Melancia é o equivalente literário das canções de bandas como The Doors e Velvet Underground”, compara.

As referências que Brautigan pinta estão espalhadas por toda a narrativa. Além de euMORTE, o autor imagina a região de Obras Esquecidas, um espaço misterioso no qual se acumulam livros, que são usados como alimento para o fogo. É clara a relação com Fahrenheit 451, clássico distópico de Ray Bradbury sobre um governo autoritário que proibia qualquer tipo de leitura. “Queimar livros ou cercear a educação é uma ação costumeira de governos totalitários, como aconteceu aqui durante o regime militar. Basta o povo cochilar que acontece de novo”, conclui o tradutor.

Açúcar de Melancia, de Richard Brautigan
240 páginas
R$ 34
José Olympio
Veja aqui

Foto principal: divulgação

Jáder Santana é jornalista e editor da Nonata. Acha que toda descrição é redutiva – ou exagerada – e prefere que os leitores tirem suas próprias conclusões. Para saber mais sobre ele, clique aqui.

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