CIDADES INTERNAS #11: O IGUATU DA AMANDA

//Cidades Internas vai até Iguatu, a quase 400km de Fortaleza, pra contar como é sair da capital para morar na 9ª cidade mais populosa do Ceará//

“Mas você não está com medo de morar sozinha numa cidade estranha e pequena?”, essa talvez tenha sido a pergunta que mais ouvi antes de me mudar. Não, não estava. Meu coração pulava de alegria, esperança e ansiedade para começar uma vida nova em outra cidade. Assim, troquei a 5ª capital do país pela 9ª cidade mais populosa do Ceará: Iguatu.

A cidade é um oásis para quem se propõe a passar de cinco a sete horas dentro de um carro ou de um ônibus, percorrendo 387 quilômetros a partir da capital alencarina. Não à toa, Iguatu significa “água boa” ou “local com grande quantidade de água”, uma referência ao Rio Jaguaribe que passa pelo município. Fiquei sabendo depois que aquele rio também foi cenário de três enchentes: em 1974, 1985 e 2004.

Depois de uma tarde inteira viajando de carro com meus pais, valeu até tirar foto na placa de “Bem-Vindo a Iguatu”. Era domingo e eu tinha uma semana inteira pela frente para procurar uma casa, móveis e avaliar os custos-benefícios da minha nova morada. Como boa brasileira que sou, sei que problemas podem ser resolvidos com pizza. Por isso, fomos conhecer os restaurantes mais badalados do coração da cidade: a Praça da Matriz, também conhecida como Igreja de Senhora Sant’Anna, padroeira de Iguatu. Lá tivemos uma pista da principal riqueza da cidade: as pessoas.

Acolhimento

Quando se trata de receber e acolher bem alguém, Iguatu leva essa missão muito a sério. Até agora, não encontrei uma única pessoa que não tenha falado comigo com um sorriso no rosto, olhando nos meus olhos. Do procurador do município ao feirante do mercado, é perceptível a boa vontade dos habitantes em ajudar, facilitar e dar o seu melhor no trabalho.

Habituada às relações sociais e culturais da capital, foi muito impactante ver e sentir o tipo de relação que as pessoas têm com as outras. Como uma cidade interiorana relativamente pequena (embora bastante desenvolvida), as pessoas se conhecem pelo nome, trocam conversa sobre a família uma das outras, com aquele jeitinho de “homem cordial” do Sérgio Buarque de Holanda. Os abismos sociais parecem também um pouco mais rasos que os da capital, e isso fica evidente na sensação de segurança das pessoas.

Costumes

A cidade se levanta muito cedo. Às quatro horas da manhã, é possível ver pessoas chegando ao local de trabalho e, não raro, comércios e fábricas iniciam o expediente às 5 horas da manhã. Quando o relógio bate 16 horas, a sensação é que já escureceu, e às 18h30 não se encontra mais viv’alma no Centro. Enquanto isso, nos bairros mais residenciais, as cadeiras já estão fora das casas, e o papo entre os vizinhos vai longe. Na praça da Matriz, os jovens já estão reunidos comentando os acontecimentos do dia. Por ser muito caseira, me adaptei rápido às opções de lazer e socialização que Iguatu oferece.

Lazer

Diversão mesmo é se encontrar com os amigos nas praças à moda antiga, sem interferência de celulares na conversa. Se eu ficar com saudades de uma atividade mais aquática, posso contar com o clube da Associação Atlética do Banco do Brasil ou ir para algum balneário da região. O teatro se apresenta apenas quando há peças disponíveis e não há cinema, talvez por isso ainda haja tantas videolocadoras sobrevivendo bravamente à geração Netflix. Os únicos resquícios dos tempos áureos da cinematografia na cidade – Cine Coliseu e Cine Alvorada, que funcionaram entre os anos de 1970 e 1980 – estão no museu da Imagem e do Som junto a discos antigos e homenagens ao ilustre iguatuense Eleazar de Carvalho. Aliás, é graças à viúva de Eleazar que o município conta, há 16 anos, com a Escola de Música Eleazar de Carvalho, cujo objetivo é dar formação musical gratuita a jovens e crianças de baixa renda.

Clima

Embora o nome remeta à água, Iguatu pode ser cruel com narizes de nativos das regiões litorâneas, como eu. Habituada à umidade do ar variando entre 80% e 70% de Fortaleza, minha nova cidade chega ao alarmante índice de 30% em algumas horas da tarde. Depois de três meses sofrendo com a secura do ar, me rendi aos umidificadores, mas já me avisaram: “Junte logo os trocados para o ar-condicionado que em setembro abrem-se as portas do inferno”. Quem avisa amigo é, né?

Foto: Arquivo Pessoal/Amanda Alboino

...

Amanda Alboino é fortalezense e jornalista do IFCE lotada no campus Iguatu. Já se aventurou publicando zines de quadrinhos e crônicas por aí e pretende retomar o hobby em breve. Foi preciso mudar de cidade para descobrir que a vida é (muito) mais que trabalho.

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