“PUREZA”, DE JONATHAN FRANZEN

//Em Pureza, seu quinto romance, Jonathan Franzen mergulha no universo das conspirações tecnológicas e se aproxima de seus antigos desafetos: a internet e as redes sociais//

Pureza apresenta aos leitores uma nova versão do escritor norte-americano Jonathan Franzen: assumidamente averso a tudo o que diz respeito a sua presença no mundo virtual, desenha um romance que mergulha nas possibilidades que as redes sociais e as novas tecnologias oferecem. A internet nunca esteve tão presente em sua literatura. E Jonathan Franzen nunca esteve tão atual.

Publicado nos Estados Unidos no ano passado, o livro chegou por aqui em maio deste ano com tradução de Jorio Dauster. Nas primeiras páginas de Pureza, conhecemos a relação doentia que a jovem Pip Tyler, vinte e poucos anos e atolada em dívidas estudantis, mantém com sua mãe, um “bloco maciço de cimento no centro de sua vida”. À medida que a leitura avança, o leitor percebe que a metáfora tem dupla simbologia: para Pip, o peso que sua mãe representa é também a âncora que a segura em momentos de desespero.

Com um passado misterioso que insiste em não recordar, a mãe de Pip vive reclusa em uma casa precária construída nas montanhas e trabalha como caixa em um supermercado da cidade. A filha saiu de casa para tentar a vida na metrópole, mas o emprego de telefonista que encontrou não lhe dá dinheiro suficiente para os débitos acumulados. A relação entre as duas se deteriora ligação após ligação – “nenhum telefonema estaria completo se não deixasse a outra infeliz” -, até que Pip recebe a oportunidade de um estágio na América do Sul.

O projeto que a contrata emula as grandes organizações anônimas que vazam informações confidenciais de governos e empresas, como o WikiLeaks de Julian Assange. Criado por Andreas Wolf, um alemão filho da turbulência política que culminou na derrubada do muro de berlim , o Projeto Luz do Sol se dedica a revelar as transações escusas que movem o cenário político internacional. Na obra de Franzen, ficção e realidade se visitam com a disputa de egos entre Andreas e Assange.

Sua trama ainda resgata a história da revolução tecnológica – em nível pessoal e global – que teve lugar a partir da década de 1990: o aparecimento do e-mail, o boom das redes sociais, a noção de compartilhamento e distribuição, a velocidade com que um segredo é divulgado. Franzen contextualiza o ambiente virtual mantendo-se atento ao que move as relações estabelecidas nesse espaço e às consequências dos diálogos intermediados pelas plataformas digitais.

Aberto a reconhecer o que de bom nos trouxe essa evolução, também se permite sinceridade quando aponta seu dedo acusador. No cenário de pequenas e grandes mudanças de comportamento, passeia com desenvoltura entre as consequências do giro: de um lado, os conflitos políticos internacionais; de outro, as discussões domésticas nascidas a partir de ironias mal entendidas em mensagens privadas.  

Em determinado momento, referindo-se aos seus protagonistas, escreve que a internet tornou “mais fácil que os dois se comportassem como crianças”. É o reconhecimento de que ainda nos falta maturidade para lidar com as possibilidades infinitas que o virtual oferece, de que ainda nos perdemos em tentativas de consolidação de um perfil público que não passa de invenção. Páginas depois, coloca que “sua vida interior praticamente se resumia agora à obsessão por sua imagem numa internet que para ele era a morte”.

Do doméstico ao global

Em seus dois romances mais famosos, Liberdade, de 2010, e o excelente As Correções, de 2001, Franzen já praticava, aos moldes dos grandes escritores realistas que assumidamente o inspiram, uma ampliação das questões familiares para um contexto social mais dilatado. Em Liberdade, os dramas de uma típica família liberal de classe média abrem espaço para discussões sobre os males da superpopulação e das ameaças ecológicas. As Correções amplifica o debate doméstico para reflexões sobre a instabilidade do mercado financeiro e a atuação da indústria farmacêutica.

Em comum entre as três obras, a habilidade que Franzen demonstrou ao transitar entre macro e microuniversos, mantendo-se sempre atento à necessidade de voltar ao núcleo familiar – afinal, são boas famílias que contam boas histórias. Em Pureza, o que permanece é a impossibilidade desse retorno: aqui, não há miolo familiar definido, as relações estão fragmentadas ou são ainda inexistentes, cabendo aos protagonistas a tarefa de estabelecê-las. Quem leu os romances anterior do autor, estranha a ausência do doméstico.

Conhecido por se esforçar para construir personagens de profundidade destrinchada, os protagonistas de Franzen – amados ou odiados – conquistam o leitor e o conduzem por suas histórias. As figuras de Pureza carecem desse carisma, e vez por outra o autor escorrega na elaboração de suas motivações e atos: o que deveria ser extravagante acaba soando pouco plausível, o que deveria aguçar a curiosidade acaba gerando desinteresse.

Elogiado pela revista Time – que o colocou em uma de suas capas de 2010 – como o “grande romancista americano”, Franzen continua dissecando as rotas e bloqueios do sonho americano em sua literatura. Pureza parece particularmente atual quando analisado dentro do contexto político recente do seu país. Em um dos bons momentos da narrativa, uma estrangeira reflete sobre a política norte-americana: “Odeio os Estados Unidos. Pensei que Obama ia mudar as coisas, mas ainda é só armas, drones, Guantánamo”. A acidez de Franzen não poupa ninguém.

Pureza, de Jonathan Franzen
616 páginas
R$ 69
Companhia das Letras
Veja aqui

Foto principal: Arpad Kurucz / Anadolu Agency / Getty

Jáder Santana é editor da Nonata e repórter de cultura e arte do jornal O Povo. Para saber mais sobre ele, clique aqui.

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