“FLORES DA RUÍNA”, DE PATRICK MODIANO

//Em Flores da Ruína, Patrick Modiano utiliza o aparato da memória para percorrer uma Paris melancólica e decadente//

É preciso falar de Patrick Modiano. O escritor foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura 2014 pelo conjunto da obra – mais de vinte livros publicados na França. Pouco conhecido no Brasil, teve três livros editados pela Record em 2015. Remissão de pena, Flores da Ruína e Primavera de Cão fazem parte da “trilogia essencial”, mesmo sendo obras independentes.

Em Flores da Ruína, o escritor francês utiliza o aparato da memória para percorrer Paris em busca de respostas sobre acontecimentos nebulosos: a ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial, a expansão dos subúrbios nos anos vindouros e o mistério em torno do suicídio de um casal nos anos de 1930. Como em outras narrativas, Modiano toma como mote o esquecimento, e é pela reminiscência e pela lembrança que suscita respostas para o presente.

A linguagem é sóbria e o estilo, direto. O narrador percorrerá as ruas parisienses para investigar a história do jovem casal Urbain T. e Gisèle S. a fim de entender os motivos que os levaram ao suicídio anos atrás. “Nesta noite, sigo seus passos em um bairro enfadonho que a torre Montparnasse vela em luto. Durante o dia, a torre encobre o céu e projeta sua sombra sobre o boulevard Edgar-Quinet e as ruas vizinhas”, descreve o narrador. Fica subentendido que a grande personagem do romance é uma Paris desmistificada e sem o glamour dos manuais de viagem.

Memória sitiada

A cidade ocupada pelos alemães na guerra irá permear as lembranças e conferir um tom melancólico à narrativa, como nesta passagem: “Eu pensava em meu pai, que tinha vivido todas as incoerências do período da Ocupação e não me contara praticamente nada antes de nos separarmos para sempre.”

Surgem personagens esparsos que somem e desaparecem, alguns conectados à morte do jovem casal. O narrador retoma o período de sua juventude e deixa escapar a indiferença com que trata a cidade: “Durante muito tempo, eu experimentei um desconforto ao percorrer certas ruas da Rive gauche. Hoje o bairro se tornou indiferente para mim, como se tivesse sido reconstruído pedra por pedra após um bombardeio, mas houvesse perdido a alma”.

Apesar de alheio à metrópole, há um mistério inaudível e que Modiano não deixa entrever ao longo do romance. A culpa parece ser o mote que leva o personagem à busca pelo passado, e apenas será dado ao leitor a incerteza e a dúvida, pelo pouco que nos conduz ao desfecho.

Ainda que separados pelo tempo, o suicídio do casal ecoa na vida do narrador como se ele fosse testemunha das ruínas provocadas pela própria história. Essas permanecem sob rastro dos escombros deixados pelo caminho. E somos convocados a não esquecer, apesar de seguirmos adiante: “De que adiantava tentar resolver mistérios insolúveis e perseguir fantasmas, quando a vida estava ali, em toda a sua simplicidade, sob o sol?”.

Flores da Ruína, de Patrick Modiano
144 páginas
R$ 27,90
Editora Record
Veja aqui

Foto principal: Getty

Fernanda Fatureto é jornalista e poeta. Para saber mais, acesse seu blog ou escreva para nandafatureto@gmail.com.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s