“LEVO VOCÊ ATÉ LÁ”, DE JOYCE CAROL OATES

//Escritora norte-americana põe o dedo nas feridas da América em seu trigésimo oitavo romance//

A escritora norte-americana Joyce Carol Oates, 78 anos, era cotada para ganhar o Prêmio Nobel de Literatura 2016 até seu conterrâneo Bob Dylan levar o prêmio. A ironia é que em 1965 Oates escreveu a short-story Where Are You Going, Where Have You Been? em homenagem à canção “It’s all over now, baby blue”, de Dylan. Em entrevista ao The Wall Street Journal, a escritora o mencionou como uma “escolha inspirada”. E acrescentou: “Nós esperamos que Bob Dylan use a oportunidade para dizer algo político. Neste tempo tumultuoso quando a democracia se vê vulnerável, é importante artistas falarem claramente e com franqueza”.

Não podíamos esperar menos de Oates, já que em seus mais de quarenta livros publicados ela tenha se posicionado politicamente, dando voz à uma América profunda e contraditória. Em Levo Você Até Lá (Globo Livros, 2004) acompanha-se a construção da identidade de uma garota americana levada ao extremo do desamparo, da inadequação e da solidão. O romance é narrado em primeira pessoa pela protagonista, uma jovem de origem rural dos Estados Unidos que abandona a cidade natal para ingressar na universidade em Nova York. Sendo a única da família a se preocupar com o universo intelectual, opta por cursar filosofia. Diversos trechos de Spinoza, Platão, Nietzsche e Wittgenstein dão coesão à narrativa. Bem articulada, a estrutura textual expõe as contradições das aparências versus essência tão caras à filosofia. Sozinha em Nova York, sentindo-se rejeitada pela família, ela sonha em ser popular entre seus colegas – e começa a perseguir o sonho americano.

A maestria de Joyce Carol Oates está em fazer do american way of life não um sonho possível para todos, mas um pesadelo que abarca muitos dos preconceitos contra as minorias e a opressão contra aqueles que não estão enquadrados no sistema. O ano era 1963, época de massivos protestos em defesa dos direitos civis nos Estados Unidos, do medo do comunismo que se espalhava pela construção do muro de Berlim, na Alemanha. Uma sociedade dividida e polarizada que iria irromper na Guerra do Vietnã. Nesse contexto, uma garota sai de casa para forjar sua identidade. Alia-se a uma irmandade que preza pelas “boas maneiras”, mas é desprezada pelas garotas populares e fúteis. Até que seu destino muda ao se apaixonar de maneira improvável.

I have a dream

Em 1963 ocorreu a Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade, evento pacifista organizado por Martin Luther King para pedir o fim da segregação racial no País. No livro, as entrelinhas da tensão racial são expostas quando a narradora se envolve com um estudante negro. Há momentos em que o questionamento sobre a aparência se sobrepõe ao texto: “Eu não teria isolado sua negritude de qualquer outra de suas características. É verdade, era um fato do seu ser, a primeira coisa que me saltaria aos olhos, mas não era um fato definidor ou definitivo. Não mais do que eu ser uma garota branca, uma caucasiana. O que isso significa?”. Em decorrência do relacionamento, ela é expulsa da irmandade. A tensão racial aumenta com o assassinato de Martin Luther King em 1968 e com o desmoronamento psicológico de seu namorado.

Por vezes, Joyce Carol Oates é conhecida pela violência com que tece sua ficção. São personagens levados ao limite ético e moral, até mesmo à exaustão física como forma de denúncia da opressão que vivem, como quando a personagem é lembrada da advertência: “Quando você põe os pés na história, a história pisa em você com suas botas.”

Perfazer o trajeto da memória é tarefa árdua, mesmo se a narradora sai ilesa e encontra seu destino. Ela se torna escritora ao resistir a um passado ínfimo. Leva a cabo a advertência do pai no início da narrativa – “Não deixe nenhum filho-da-puta por aí fazer pouco de você”. Ela consegue domar as aparências ao percorrer a via crucis da humilhação e do desprezo ao se tornar uma self made woman.

O livro, lançado em 2002 nos EUA, é extremamente atual agora que Donald Trump foi eleito presidente, mesmo tendo feito uma campanha racista, machista e xenófoba. Prova de que a América não é feita para todos. Na ficção, sobressai um certo otimismo ao recorrer a Nietzsche para encarar o futuro: “Nós vivemos esta vida, esta hora, muitas vezes; ainda não fomos derrotados; somos fortes o bastante para suportá-la; devemos apenas dizer Sim”.

Levo Você Até Lá, de Joyce Carol Oates
304 páginas
R$ 44,00
Globo Livros
Veja aqui

Foto principal: David J. Bertozzi / BuzzFeed

Fernanda Fatureto é jornalista e poeta. Para saber mais, acesse seu blog ou escreva para nandafatureto@gmail.com.

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