SOBRE O QUE DIZEM DAS PUTAS

//Em seu novo romance, o décimo de sua carreira, a escritora carioca Elvira Vigna dissolve limites entre esposa e puta//

Quando terminou a primeira versão de Como se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas, a escritora Elvira Vigna decidiu se desfazer de tudo o que havia escrito para aquele projeto. “Joguei o arquivo inteiro fora, recomecei do zero”, conta ela, julgando que sua narrativa estivesse impregnada de uma linguagem grave e de citações eruditas (algumas delas acabaram sendo mantidas, afinal). Temia que essa gravidade fosse incorporada pelo leitor e que acabasse outorgando à leitura um peso moralista “que não desejava de jeito algum”.

“Não é a primeira vez que jogo fora um texto inteiro. Acho eficaz”. E assim o fez, limpando-se de suas vaidades e se atualizando na direção de conseguir uma linguagem mais viva. Em seu novo romance, o décimo de sua carreira, Vigna escolhe o verão carioca para situar o encontro de dois estranhos e a gradativa abertura que se concedem – dia após dia, ele relata a ela seus encontros frequentes com prostitutas. Cabe a sua interlocutora, assim como ao leitor, preencher as lacunas do que ouve – ou lê – e completar a narrativa.

“Ela, na época em que esses encontros ocorrem, é muito nova e não entende bem quem é aquele homem na sua frente”, explica a escritora quando questionada sobre o modo como a personagem receberia aquelas confidências. Segundo Vigna, a inabilidade da protagonista perante as histórias de seu interlocutor reflete o modo como a própria autora encara e ressignifica suas memórias próprias: “uso lembranças do tipo trauma, cenas, imagens que nunca esqueci justamente porque não fizeram sentido no momento em que ocorreram”.

Apesar da reação desconfiada, é com certo fascínio – e algum espanto – que a protagonista ouve as histórias que lhe são narradas. Vigna explica que a personagem demonstra sentir atração por seu interlocutor, que ela o enxerga como um “cara que não consegue aproveitar bem a vida e as pessoas que aparecem nela”. Aparecem e desaparecem, descartáveis, depois do sexo em um quarto de motel.

Do outro lado há a figura do contador das histórias, o homem perdido entre referências e episódios das muitas mulheres que integram sua vida. Suas lembranças se confundem, perdem-se os detalhes e as cenas. Das garotas de programa, guarda o nome de apenas uma delas. “Ele não as vê como pessoas. E aí a esposa, a narradora e as prostitutas são tratadas como absolutamente iguais. Nenhuma consegue ser vista como alguém com vida independente”, observa Vigna.

Na nova elaboração de seu texto, a autora decidiu abolir o moralismo que poderia marcar sua narrativa, garantindo à esposa e às prostitutas o mesmo peso. “Protagonistas mulheres fortes e intensas só chamam atenção porque a literatura é dominada por protagonistas homens fortes e intensos”, reflete ela. Vigna colocou a narrativa nas mãos de figuras femininas em Por Escrito, de 2014, seu último romance publicado antes de Como se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas. Questionada sobre o modo como enxerga contradições e complementos entre as mulheres dos dois livros, responde que o papel delas “não mudou, continuam observando os homens criticamente, um pouco ‘de longe’”.

[+] Vigna gravou alguns vídeos lendo trechos de seu romance para a Companhia das Letras. Veja aqui o primeiro deles.

Como Se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas, de Elvira Vigna
216 páginas
R$ 44
Companhia das Letras
Veja aqui

Foto principal: Renato Parada

Jáder Santana é editor da Nonata e repórter de cultura e arte do jornal O Povo. Para saber mais sobre ele, clique aqui.

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